dois
”I’m looking for a place
searching for a face
is there anybody here i know
Cause nothings going right
and everythigns a mess
and no one likes to be alone”
Avril Lavigne . I’m with you
Arriscou abrir os olhos aos poucos. O Sol de duas horas entrava na sua retina ao mesmo tempo em que entendia porque estava deitada em diagonal na cama da sua mãe e o que diabos a Clara fazia em cima dela batendo uma colher na sua cabeça. Enxergou na cabeceira uma caixa branca, meio amassada, e imediatamente esticou o braço, mas não encontrou nenhum cigarro. O mar de copos de plástico no chão a fez entender a gravidade da situação. “Vamos sair”. Deu um pulo da cama, pois sabia que era o único jeito de sair dali. “E pára de bater essa porra em mim”. Clara jogou a colher longe.
Deram bom dia à Vaca (em frente ao prédio de Emília havia uma enigmática escultura de uma vaca, e desde pequena ela adquiriu o costume de nunca sair de casa sem cumprimentá-la) e logo perceberam que não havia mais ninguém para dar bom dia por ali. Domingo, primeiro de janeiro, não costuma ser um dia muito movimentado em Belo Horizonte. Mas aquele silêncio não parecia real. Podiam tirar uma sonequinha no meio da Contorno, ou jogar frescobol entre uma pista e outra. Demoraram a achar um bar aberto e voltaram contentes com os cigarros.
No telefone:
“Oi mãe“.
“Feliz ano novo, flor!”.
“Pra você também... E o papai?”.
“Melhor impossível. A traqueostomia não teve nenhuma complicação e o pulmão melhorou. O médico deu um dia de alta e ele passou o ano novo aqui na casa da sua tia”. Emília esboçou o primeiro sorriso do ano.
“Ai que bom. Posso falar com ele?”
“Não, os enfermeiros passaram cedinho pra buscá-lo. E você minha filha?”.
“Estou aqui com a Clara, passei o reveillon com ela e uns amigos – pensou na diferença entre o que sua mãe imaginava e quantos eram na verdade esses amigos. Vimos os foguetes, foi legal”.
Clara lhe deu um abraço. "Mila, tenho que passar em casa, pelo menos dar comida para o Jingle Bell...”
Fechou a porta e foi para a cozinha. Na janela, o copo com gelo, agora derretido, trouxe lembranças e vagas sensações de uma noite divertida. Mas a tarde caía e ela tentava não pensar nessas bobagens de ‘ano novo, vida nova’. Do quarto, “I’m with you”, da Avril Lavigne, parecia provocação do Winamp.
Há pouco tempo mal conseguia se imaginar com vinte anos. Pessoas de vinte anos eram adultas, com salto fino e bolsa de couro preta, casadas e provavelmente grávidas. Quando entrou na adolescência, viu com clareza. Seria uma arquiteta, moraria (sem se casar) com o Walter, que também tocaria guitarra na sua banda. Walter mudou do colégio antes que eles ficassem pela terceira vez, levando junto o semi-casamento e a banda. Há três semanas, dois dias antes de seu pai ter ido junto com sua mãe às pressas para Campinas se tratar de um enfisema pulmonar, Emília trancou sua matrícula na faculdade de Arquitetura sem explicar o motivo para ninguém, nem para ela mesma. Agora limpava os restos da festa do ano passado, sem confiar que essas datas sejam algum sinal de algo novo. Tudo que podia esperar era sair para algum lugar legal na terça-feira. Pensou no seu pai e esquentou leite com chocolate exatamente como ele havia lhe ensinado.
**********************************
O tédio vem passar férias de verão em Belo Horizonte. Foi a única coisa que conseguiu pensar antes de ver a mensagem no celular. ei, filme no belas artes hj, anima?
Emília não acreditou. Há meses suava frio só de passar perto do João, e logo depois que chegou ao cúmulo do desespero de ficar dando colheradas na cabeça dele (na festa de reveillon), um encontro assim do nada. Teve medo. Deixou um bilhete na porta para a Clara: Não estou em casa, saí com o João. Sério. Ele era inteligente, tinha camisas legais e amigos fodas. Durante o caminho à pé até o cinema, falava para ela mesma: “O João é um cara legal, não vou dar uma de idiota, o João é um cara legal, não vou dar uma de idiota, o João é um cara legal, não vou dar uma de idiota...”
Antes de entrar viu João e Fróes conversando e rindo na porta do cinema. Pensou em dar meia-volta. Tarde demais. Eles já tinham visto e o jeito era improvisar uma pose “sou descolada e estou à vontade demais”. A fila estava cheia de meninas de cachecol e cintos de tachinha, parecendo muito mais espertas do que ela. Foi dramático, mas depois admitiu para si mesma que se saiu bem, até porque os dois foram muito legais. Na saída João ainda soltou: “Vou botar som lá em uma festa quinta que vem, vê se aparece”. Voltou pisando alguns centímetros acima do chão.
O papel amarelo estava em cima do sofá com uma resposta: O João Peter? Ótimo! Ah, um tal de Bruno ligou – 3323-2965. Bruno era um amigo de sua mãe, que tinha comprado uma loja na avenida Prudente de Morais e estava reformando para fazer um bar. Ela tinha comentado sobre trabalhar lá, mas não pensou que ele ia ligar. Combinou de passar lá na quinta-feira, antes da festa e... Mal podia esperar.
searching for a face
is there anybody here i know
Cause nothings going right
and everythigns a mess
and no one likes to be alone”
Avril Lavigne . I’m with you
Arriscou abrir os olhos aos poucos. O Sol de duas horas entrava na sua retina ao mesmo tempo em que entendia porque estava deitada em diagonal na cama da sua mãe e o que diabos a Clara fazia em cima dela batendo uma colher na sua cabeça. Enxergou na cabeceira uma caixa branca, meio amassada, e imediatamente esticou o braço, mas não encontrou nenhum cigarro. O mar de copos de plástico no chão a fez entender a gravidade da situação. “Vamos sair”. Deu um pulo da cama, pois sabia que era o único jeito de sair dali. “E pára de bater essa porra em mim”. Clara jogou a colher longe.
Deram bom dia à Vaca (em frente ao prédio de Emília havia uma enigmática escultura de uma vaca, e desde pequena ela adquiriu o costume de nunca sair de casa sem cumprimentá-la) e logo perceberam que não havia mais ninguém para dar bom dia por ali. Domingo, primeiro de janeiro, não costuma ser um dia muito movimentado em Belo Horizonte. Mas aquele silêncio não parecia real. Podiam tirar uma sonequinha no meio da Contorno, ou jogar frescobol entre uma pista e outra. Demoraram a achar um bar aberto e voltaram contentes com os cigarros.
No telefone:
“Oi mãe“.
“Feliz ano novo, flor!”.
“Pra você também... E o papai?”.
“Melhor impossível. A traqueostomia não teve nenhuma complicação e o pulmão melhorou. O médico deu um dia de alta e ele passou o ano novo aqui na casa da sua tia”. Emília esboçou o primeiro sorriso do ano.
“Ai que bom. Posso falar com ele?”
“Não, os enfermeiros passaram cedinho pra buscá-lo. E você minha filha?”.
“Estou aqui com a Clara, passei o reveillon com ela e uns amigos – pensou na diferença entre o que sua mãe imaginava e quantos eram na verdade esses amigos. Vimos os foguetes, foi legal”.
Clara lhe deu um abraço. "Mila, tenho que passar em casa, pelo menos dar comida para o Jingle Bell...”
Fechou a porta e foi para a cozinha. Na janela, o copo com gelo, agora derretido, trouxe lembranças e vagas sensações de uma noite divertida. Mas a tarde caía e ela tentava não pensar nessas bobagens de ‘ano novo, vida nova’. Do quarto, “I’m with you”, da Avril Lavigne, parecia provocação do Winamp.
Há pouco tempo mal conseguia se imaginar com vinte anos. Pessoas de vinte anos eram adultas, com salto fino e bolsa de couro preta, casadas e provavelmente grávidas. Quando entrou na adolescência, viu com clareza. Seria uma arquiteta, moraria (sem se casar) com o Walter, que também tocaria guitarra na sua banda. Walter mudou do colégio antes que eles ficassem pela terceira vez, levando junto o semi-casamento e a banda. Há três semanas, dois dias antes de seu pai ter ido junto com sua mãe às pressas para Campinas se tratar de um enfisema pulmonar, Emília trancou sua matrícula na faculdade de Arquitetura sem explicar o motivo para ninguém, nem para ela mesma. Agora limpava os restos da festa do ano passado, sem confiar que essas datas sejam algum sinal de algo novo. Tudo que podia esperar era sair para algum lugar legal na terça-feira. Pensou no seu pai e esquentou leite com chocolate exatamente como ele havia lhe ensinado.
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O tédio vem passar férias de verão em Belo Horizonte. Foi a única coisa que conseguiu pensar antes de ver a mensagem no celular. ei, filme no belas artes hj, anima?
Emília não acreditou. Há meses suava frio só de passar perto do João, e logo depois que chegou ao cúmulo do desespero de ficar dando colheradas na cabeça dele (na festa de reveillon), um encontro assim do nada. Teve medo. Deixou um bilhete na porta para a Clara: Não estou em casa, saí com o João. Sério. Ele era inteligente, tinha camisas legais e amigos fodas. Durante o caminho à pé até o cinema, falava para ela mesma: “O João é um cara legal, não vou dar uma de idiota, o João é um cara legal, não vou dar uma de idiota, o João é um cara legal, não vou dar uma de idiota...”
Antes de entrar viu João e Fróes conversando e rindo na porta do cinema. Pensou em dar meia-volta. Tarde demais. Eles já tinham visto e o jeito era improvisar uma pose “sou descolada e estou à vontade demais”. A fila estava cheia de meninas de cachecol e cintos de tachinha, parecendo muito mais espertas do que ela. Foi dramático, mas depois admitiu para si mesma que se saiu bem, até porque os dois foram muito legais. Na saída João ainda soltou: “Vou botar som lá em uma festa quinta que vem, vê se aparece”. Voltou pisando alguns centímetros acima do chão.
O papel amarelo estava em cima do sofá com uma resposta: O João Peter? Ótimo! Ah, um tal de Bruno ligou – 3323-2965. Bruno era um amigo de sua mãe, que tinha comprado uma loja na avenida Prudente de Morais e estava reformando para fazer um bar. Ela tinha comentado sobre trabalhar lá, mas não pensou que ele ia ligar. Combinou de passar lá na quinta-feira, antes da festa e... Mal podia esperar.

1 Comments:
'... i don't know who you are, but i'm with you...'
morar sem casar. associei na hora. =)
beijos, meu orgulhinho. =*****
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