sábado, julho 16, 2005

três

“Se você pretende saber quem eu sou
eu posso lhe dizer
Entre no meu carro na estrada de Santos e você vai me conhecer
(...)
Mas se o amor que perdi eu novamente encontrar
As curvas se acabam
e na estrada de Santos eu não vou mais passar”
Roberto Carlos. As curvas da estrada de Santos


As mesas e cadeiras de madeira, a cobertura de palha, a televisão ligada no futebol e tudo que resultava no nome Quiosque deixaram a impressão de que não era ali que ela devia estar. E não era ali que estava realmente. Apenas se lembrava das vezes que fora ao local quando ainda era o Quiosque, enquanto Bruno explicava como montaria o novo bar, gesticulando e abrindo os braços tão efusivamente, que quando chegava perto, ela não sabia se estava oferecendo um abraço ou apenas conversando. Perdida nas lembranças e na dúvida do abraço, a única palavra que ouviu dos mais de dez minutos em que ele falou sem parar foi Mojito. Ela achava Mojito uma delícia.
- E então, Emília?
- Ehhh. Pelo que entendi, achei... Uma delícia.
Na despedida deu finalmente o abraço e desceu as escadas correndo, sem saber que ainda ia conhecer cada uma das faixas vermelhas daqueles degraus.

Na Savassi, em frente ao Café, ao lado de uma menina com cabelo David Beckham e um garoto de bermuda e camisa do Nirvana, esperou pela Clara por quase uma hora. Perguntou para o garoto de bermuda se ele ia ficar por lá, e pediu para dizer que “a Mila já foi, caso uma menina de cabelo enrolado e óculos vermelhos aparecesse”.

Por mais pessoas conhecidas que encontrasse, queria que Clara estivesse ali, para poder falar coisas além de “Oi, sumida!” e “Essa é a nova do Weezer?”. Do outro lado da pista, olhou para a cabine do DJ no momento em que João colocou “As curvas da estrada de Santos”, do Roberto Carlos. Pisou sem querer, bem forte, no pé de um sujeito que fez cara de reprovação à musica. Quando chegou perto da cabine, reconheceu os acordes da outra canção que começava e sentiu o sangue subir pelo corpo. Sua cabeça começou a fazer aquele barulhinho de projetor de filme.

Emília é penetra no aniversário, e enquanto as pessoas conversam na varanda ela está sozinha no quarto de não-sabe-quem, mexendo nos CDs (a típica cena da menina esquisita e anti-social). Acha o primeiro do Oasis e tira da caixinha. Quando percebe que um menino de cabelo azul espetado também está no quarto, quase morre de vergonha. Finge que nada está acontecendo, e coloca na oitava faixa, “Cigarettes and Alcohol”.
- Que alívio, se você pusesse em “Live Forever” eu ia embora.
Ela se vira numa tentativa frustrada de fingir que não sabia que o menino está na porta do quarto. Ele ri e ela ri sem graça.
- Hã?
- “Live Forever” é a das menininhas. Se você colocasse, eu ia achar previsível, muito menina-clichê, e ia embora.

Aos 17 anos, Emília não estava longe da definição de menina-clichê. Estava recém livrada da fase mais acentuada de timidez e da rebeldia sem causa. Tinha perdido a virgindade há um ano, mas depois de dez meses sem nada começava a se sentir virgem de novo. Estudava o suficiente para passar no vestibular e exatamente naquele dia estava se sentido mal. O que o menino de cabelo azul, o João Peter, acabara de lhe dizer, não tinha caído bem e ela se viu na hora como a menina mais clichê do mundo. Fechou a cara.
- Mas “Cigarettes” é muito boa mesmo.
Ela esboçou um meio-sorriso e ele foi embora quando a música acabou. Ela se arrependeu, mas não soube o que dizer para que ele não fosse.

Encontraram-se de novo em outras festas e três anos depois ele tocava a canção que ouviram naquele dia. Meia hora depois eles conversavam no bar.
- Não acredito que você se lembrou...
- Ah, você sacou a homenagem? – perguntou, modesto.
Ele planejava sair cedo, mas acabou ficando uma hora e trinta e oito minutos conversando com Emília.

Dez minutos depois que ele saiu, Clara chegou com dois copos de cuba e entregou um para Emília. Ela engoliu sem pensar muito, ainda encantada, como se João estivesse lá. Aos poucos levantou, foi para a pista e dançou como se alguém tivesse a exigindo que ela o fizesse com um revólver em sua cabeça. “Quem troca estas luzes amarelas tão altas quando elas queimam?”, perguntou para si mesma, deitada no ponto do ônibus pouco antes de amanhecer. Acordou com a mãe de Clara a carregando do tapete para o sofá.

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2 mensagens recebidas. “semana q vem vamos abrir. uniforme p ou m? – remetente: Bruno”. “baiana hj, passo aí – Remetente – João”. Desta vez Fróes não estava com ele, o que ela lamentou sinceramente, antes de perceber a própria inocência no lamento. Sentaram no bar às oito horas e conversaram uma conversa de fim previsível.
- Para falar a verdade, eu tenho medo de você. Você é o cara de cabelo azul e eu sou a menina-clichê, lembra?
- Mas o que eu disse foi o contrário! Quero dizer... Faz três anos, lembro que achei legal você ter colocado aquela música, mas você não me deu muito papo. E há dois anos eu não tenho cabelo azul... E parece que você mudou também. Era muito calada, mas hoje, confesso, às vezes eu é que tenho medo de você.
- Como assim?
- Não sei, parece mais... segura.
- Ah, então você tem medo de mulheres seguras?
- Tenho sim, mas elas me atraem.
Presos nas cadeiras amarelas de plástico, eles aproximaram os rostos o máximo possível e apenas encostaram os lábios, ela de olhos abertos e ele com as mãos no seu pescoço. Sentiram a respiração um do outro. Encontraram o ritmo perfeito para um beijo e perderem a noção do tempo. Ajeitaram-se nas cadeiras e tomaram mais cerveja do que o recomendável numa segunda-feira, conversaram sobre o repertório de João, sobre o filme da semana retrasada (ninjas chineses voadores não são muito legais, concordaram) e se aproximaram mais para sentir lábios e respirações.

Emília não achou nada para comer quando chegou em casa, mas foi dormir satisfeita. Na verdade, há dois dias se alimentava de uma pizza gigante que pedira pelo telefone. O detergente e outros produtos de limpeza tinham acabado, o que era uma boa desculpa para não limpar mais nada. As notícias de Campinas não eram boas.

“O tratamento vai demorar pelo menos mais dois meses, filha. Ele está reagindo muito bem, mas o Doutor Regis precisa acompanhar diariamente os resultados dos exames.”
“Tudo bem... E não precisa se preocupar comigo” - olhou para a pilha de pratos na pia e passou a mão na cabeça.
“Que bom, filhota. Você vai à faculdade hoje?”
“Quê?”
“Na faculdade, resolver aquele problema...”
“Que problema?”
“Da matrícula e dos...”.
Emília interrompeu: “Mãe, eu não tenho problema nenhum na faculdade. Tranquei minha matrícula há um mês e não... Já foi... Ehhhh... Ah, nós já conversamos sobre isso. Por favor!“

segunda-feira, julho 11, 2005

dois

”I’m looking for a place
searching for a face
is there anybody here i know
Cause nothings going right
and everythigns a mess
and no one likes to be alone”
Avril Lavigne . I’m with you


Arriscou abrir os olhos aos poucos. O Sol de duas horas entrava na sua retina ao mesmo tempo em que entendia porque estava deitada em diagonal na cama da sua mãe e o que diabos a Clara fazia em cima dela batendo uma colher na sua cabeça. Enxergou na cabeceira uma caixa branca, meio amassada, e imediatamente esticou o braço, mas não encontrou nenhum cigarro. O mar de copos de plástico no chão a fez entender a gravidade da situação. “Vamos sair”. Deu um pulo da cama, pois sabia que era o único jeito de sair dali. “E pára de bater essa porra em mim”. Clara jogou a colher longe.

Deram bom dia à Vaca (em frente ao prédio de Emília havia uma enigmática escultura de uma vaca, e desde pequena ela adquiriu o costume de nunca sair de casa sem cumprimentá-la) e logo perceberam que não havia mais ninguém para dar bom dia por ali. Domingo, primeiro de janeiro, não costuma ser um dia muito movimentado em Belo Horizonte. Mas aquele silêncio não parecia real. Podiam tirar uma sonequinha no meio da Contorno, ou jogar frescobol entre uma pista e outra. Demoraram a achar um bar aberto e voltaram contentes com os cigarros.

No telefone:
“Oi mãe“.
“Feliz ano novo, flor!”.
“Pra você também... E o papai?”.
“Melhor impossível. A traqueostomia não teve nenhuma complicação e o pulmão melhorou. O médico deu um dia de alta e ele passou o ano novo aqui na casa da sua tia”. Emília esboçou o primeiro sorriso do ano.
“Ai que bom. Posso falar com ele?”
“Não, os enfermeiros passaram cedinho pra buscá-lo. E você minha filha?”.
“Estou aqui com a Clara, passei o reveillon com ela e uns amigos – pensou na diferença entre o que sua mãe imaginava e quantos eram na verdade esses amigos. Vimos os foguetes, foi legal”.

Clara lhe deu um abraço. "Mila, tenho que passar em casa, pelo menos dar comida para o Jingle Bell...”

Fechou a porta e foi para a cozinha. Na janela, o copo com gelo, agora derretido, trouxe lembranças e vagas sensações de uma noite divertida. Mas a tarde caía e ela tentava não pensar nessas bobagens de ‘ano novo, vida nova’. Do quarto, “I’m with you”, da Avril Lavigne, parecia provocação do Winamp.

Há pouco tempo mal conseguia se imaginar com vinte anos. Pessoas de vinte anos eram adultas, com salto fino e bolsa de couro preta, casadas e provavelmente grávidas. Quando entrou na adolescência, viu com clareza. Seria uma arquiteta, moraria (sem se casar) com o Walter, que também tocaria guitarra na sua banda. Walter mudou do colégio antes que eles ficassem pela terceira vez, levando junto o semi-casamento e a banda. Há três semanas, dois dias antes de seu pai ter ido junto com sua mãe às pressas para Campinas se tratar de um enfisema pulmonar, Emília trancou sua matrícula na faculdade de Arquitetura sem explicar o motivo para ninguém, nem para ela mesma. Agora limpava os restos da festa do ano passado, sem confiar que essas datas sejam algum sinal de algo novo. Tudo que podia esperar era sair para algum lugar legal na terça-feira. Pensou no seu pai e esquentou leite com chocolate exatamente como ele havia lhe ensinado.


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O tédio vem passar férias de verão em Belo Horizonte. Foi a única coisa que conseguiu pensar antes de ver a mensagem no celular. ei, filme no belas artes hj, anima?

Emília não acreditou. Há meses suava frio só de passar perto do João, e logo depois que chegou ao cúmulo do desespero de ficar dando colheradas na cabeça dele (na festa de reveillon), um encontro assim do nada. Teve medo. Deixou um bilhete na porta para a Clara: Não estou em casa, saí com o João. Sério. Ele era inteligente, tinha camisas legais e amigos fodas. Durante o caminho à pé até o cinema, falava para ela mesma: “O João é um cara legal, não vou dar uma de idiota, o João é um cara legal, não vou dar uma de idiota, o João é um cara legal, não vou dar uma de idiota...”

Antes de entrar viu João e Fróes conversando e rindo na porta do cinema. Pensou em dar meia-volta. Tarde demais. Eles já tinham visto e o jeito era improvisar uma pose “sou descolada e estou à vontade demais”. A fila estava cheia de meninas de cachecol e cintos de tachinha, parecendo muito mais espertas do que ela. Foi dramático, mas depois admitiu para si mesma que se saiu bem, até porque os dois foram muito legais. Na saída João ainda soltou: “Vou botar som lá em uma festa quinta que vem, vê se aparece”. Voltou pisando alguns centímetros acima do chão.

O papel amarelo estava em cima do sofá com uma resposta: O João Peter? Ótimo! Ah, um tal de Bruno ligou – 3323-2965. Bruno era um amigo de sua mãe, que tinha comprado uma loja na avenida Prudente de Morais e estava reformando para fazer um bar. Ela tinha comentado sobre trabalhar lá, mas não pensou que ele ia ligar. Combinou de passar lá na quinta-feira, antes da festa e... Mal podia esperar.

sábado, julho 02, 2005

um

“So if you’re lonely / you know I’m here waiting for you”. Julian Casablancas descobriu o jeito mais sexy possível de se cantar nos últimos tempos. E um britânico aprimorar uma invenção americana é quase uma lei da música pop.

Pensou nisso daquela forma desajeitada em que a gente pensa na maioria das coisas, especialmente com um copo de vodca com Coca-Cola nas mãos, às quinze para as quatro da madrugada, enquanto o hit do Franz Ferdinand fez todos os seus amigos correrem para a sala.

Isso fez disparar nela imediatamente uma injeção de adrenalina e pensou que, de uma forma estranha, sentir o coração apertar ao som de acorde dissonante é uma forma de saber que ele ainda está batendo. Talvez essa seja uma conclusão óbvia para qualquer pessoa que ouve música, e ter consciência disso agora não resolvia em nada seu problema.

“I know I won’t be leaving here with you”. Não que esse fosse exatamente a questão, mas enquanto a canção estava naquela mudança de batida que fazia todo mundo levantar as mãos ou se mover de qualquer outra forma expansiva, sentiu as gotas de cerveja voarem de um copo qualquer direto para a sua saia como uma ducha gelada em todo o corpo.

Pela milésima vez na vida se sentia assim e, por algum motivo qualquer, sabia que seria a última. “My little empire / I’m happy being sad”. Os versos dos Manic Street Preachers costumavam ser um conforto, mas quando ela foi fazer a milésima viagem imaginária do meio da festa até a segurança do seu quarto, não pôde mais.

Porque a adolescência se tornou óbvia e acabou, porque a música estava tão alta que ela não ouvia seu próprio pensamento, ou simplesmente por nenhum motivo aparente, pela mesma falta de sentido que ela descobria a cada minuto em todas as coisas ao seu redor.

Agora ela já não era dona do seu pequeno império, até porque os reis não existem mais, e o mesmo trauma das guilhotinas era um trauma pessoal. Ela nunca fez ninguém perder a cabeça (literalmente) e nunca achou que questões de ciência e progresso pudessem falar mais alto do que seu coração. Mas ganhou herança sua própria vida e uma ignorância absoluta do que ela significa.

Nesse momento perdia a noção do que realmente havia do lado de fora da sua retina. Mas ninguém lhe tirou a possibilidade de acreditar nas suas sensações, e isso ela ainda podia fazer. Cada movimento desajeitado dos seus pés sobre o salto, enquanto ouvia sons de bateria alguns decibéis acima de um nível saudável, era um pequeno manifesto sem palavras. Uma nova injeção de adrenalina fez com que voltasse a ver imagens em três dimensões, quase enxergando ela mesma, e quis contar pra todo mundo sobre sua felicidade, tão frágil quanto bem vinda. “If I wink, this can die / If I wane, this can die”

sexta-feira, julho 01, 2005

“Teenage angst has paid off well / now I’m bored and old...”
(Serve the Servants . Nirvana)

Sei que a gente nunca supera. Tem esse cara aí em cima, que embarcou na terrível egotrip adolescente e ficou. Na verdade, nem sei o que aconteceu com ele. Eu falo é do Ortega.

Essas poesias wannabe me apresentam aqui. Eu as escrevi há três, quatro anos. Claro que ainda fazem parte de mim. Mas não sou mais um moleque reclamão. E também não criei esse blog pra contar minha vida. A idéia era criar umas historinhas e registrar pra quem quiser ver.

Nem eu sei o que acontece em seguida. Pretendo colocar uns posts numerados, que são seqüências da tal outra historinha.