três
eu posso lhe dizer
Entre no meu carro na estrada de Santos e você vai me conhecer
(...)
Mas se o amor que perdi eu novamente encontrar
As curvas se acabam
e na estrada de Santos eu não vou mais passar”
Roberto Carlos. As curvas da estrada de Santos
As mesas e cadeiras de madeira, a cobertura de palha, a televisão ligada no futebol e tudo que resultava no nome Quiosque deixaram a impressão de que não era ali que ela devia estar. E não era ali que estava realmente. Apenas se lembrava das vezes que fora ao local quando ainda era o Quiosque, enquanto Bruno explicava como montaria o novo bar, gesticulando e abrindo os braços tão efusivamente, que quando chegava perto, ela não sabia se estava oferecendo um abraço ou apenas conversando. Perdida nas lembranças e na dúvida do abraço, a única palavra que ouviu dos mais de dez minutos em que ele falou sem parar foi Mojito. Ela achava Mojito uma delícia.
- E então, Emília?
- Ehhh. Pelo que entendi, achei... Uma delícia.
Na despedida deu finalmente o abraço e desceu as escadas correndo, sem saber que ainda ia conhecer cada uma das faixas vermelhas daqueles degraus.
Na Savassi, em frente ao Café, ao lado de uma menina com cabelo David Beckham e um garoto de bermuda e camisa do Nirvana, esperou pela Clara por quase uma hora. Perguntou para o garoto de bermuda se ele ia ficar por lá, e pediu para dizer que “a Mila já foi, caso uma menina de cabelo enrolado e óculos vermelhos aparecesse”.
Por mais pessoas conhecidas que encontrasse, queria que Clara estivesse ali, para poder falar coisas além de “Oi, sumida!” e “Essa é a nova do Weezer?”. Do outro lado da pista, olhou para a cabine do DJ no momento em que João colocou “As curvas da estrada de Santos”, do Roberto Carlos. Pisou sem querer, bem forte, no pé de um sujeito que fez cara de reprovação à musica. Quando chegou perto da cabine, reconheceu os acordes da outra canção que começava e sentiu o sangue subir pelo corpo. Sua cabeça começou a fazer aquele barulhinho de projetor de filme.
Emília é penetra no aniversário, e enquanto as pessoas conversam na varanda ela está sozinha no quarto de não-sabe-quem, mexendo nos CDs (a típica cena da menina esquisita e anti-social). Acha o primeiro do Oasis e tira da caixinha. Quando percebe que um menino de cabelo azul espetado também está no quarto, quase morre de vergonha. Finge que nada está acontecendo, e coloca na oitava faixa, “Cigarettes and Alcohol”.
- Que alívio, se você pusesse em “Live Forever” eu ia embora.
Ela se vira numa tentativa frustrada de fingir que não sabia que o menino está na porta do quarto. Ele ri e ela ri sem graça.
- Hã?
- “Live Forever” é a das menininhas. Se você colocasse, eu ia achar previsível, muito menina-clichê, e ia embora.
Aos 17 anos, Emília não estava longe da definição de menina-clichê. Estava recém livrada da fase mais acentuada de timidez e da rebeldia sem causa. Tinha perdido a virgindade há um ano, mas depois de dez meses sem nada começava a se sentir virgem de novo. Estudava o suficiente para passar no vestibular e exatamente naquele dia estava se sentido mal. O que o menino de cabelo azul, o João Peter, acabara de lhe dizer, não tinha caído bem e ela se viu na hora como a menina mais clichê do mundo. Fechou a cara.
- Mas “Cigarettes” é muito boa mesmo.
Ela esboçou um meio-sorriso e ele foi embora quando a música acabou. Ela se arrependeu, mas não soube o que dizer para que ele não fosse.
Encontraram-se de novo em outras festas e três anos depois ele tocava a canção que ouviram naquele dia. Meia hora depois eles conversavam no bar.
- Não acredito que você se lembrou...
- Ah, você sacou a homenagem? – perguntou, modesto.
Ele planejava sair cedo, mas acabou ficando uma hora e trinta e oito minutos conversando com Emília.
Dez minutos depois que ele saiu, Clara chegou com dois copos de cuba e entregou um para Emília. Ela engoliu sem pensar muito, ainda encantada, como se João estivesse lá. Aos poucos levantou, foi para a pista e dançou como se alguém tivesse a exigindo que ela o fizesse com um revólver em sua cabeça. “Quem troca estas luzes amarelas tão altas quando elas queimam?”, perguntou para si mesma, deitada no ponto do ônibus pouco antes de amanhecer. Acordou com a mãe de Clara a carregando do tapete para o sofá.
******************************************
2 mensagens recebidas. “semana q vem vamos abrir. uniforme p ou m? – remetente: Bruno”. “baiana hj, passo aí – Remetente – João”. Desta vez Fróes não estava com ele, o que ela lamentou sinceramente, antes de perceber a própria inocência no lamento. Sentaram no bar às oito horas e conversaram uma conversa de fim previsível.
- Para falar a verdade, eu tenho medo de você. Você é o cara de cabelo azul e eu sou a menina-clichê, lembra?
- Mas o que eu disse foi o contrário! Quero dizer... Faz três anos, lembro que achei legal você ter colocado aquela música, mas você não me deu muito papo. E há dois anos eu não tenho cabelo azul... E parece que você mudou também. Era muito calada, mas hoje, confesso, às vezes eu é que tenho medo de você.
- Como assim?
- Não sei, parece mais... segura.
- Ah, então você tem medo de mulheres seguras?
- Tenho sim, mas elas me atraem.
Presos nas cadeiras amarelas de plástico, eles aproximaram os rostos o máximo possível e apenas encostaram os lábios, ela de olhos abertos e ele com as mãos no seu pescoço. Sentiram a respiração um do outro. Encontraram o ritmo perfeito para um beijo e perderem a noção do tempo. Ajeitaram-se nas cadeiras e tomaram mais cerveja do que o recomendável numa segunda-feira, conversaram sobre o repertório de João, sobre o filme da semana retrasada (ninjas chineses voadores não são muito legais, concordaram) e se aproximaram mais para sentir lábios e respirações.
Emília não achou nada para comer quando chegou em casa, mas foi dormir satisfeita. Na verdade, há dois dias se alimentava de uma pizza gigante que pedira pelo telefone. O detergente e outros produtos de limpeza tinham acabado, o que era uma boa desculpa para não limpar mais nada. As notícias de Campinas não eram boas.
“O tratamento vai demorar pelo menos mais dois meses, filha. Ele está reagindo muito bem, mas o Doutor Regis precisa acompanhar diariamente os resultados dos exames.”
“Tudo bem... E não precisa se preocupar comigo” - olhou para a pilha de pratos na pia e passou a mão na cabeça.
“Que bom, filhota. Você vai à faculdade hoje?”
“Quê?”
“Na faculdade, resolver aquele problema...”
“Que problema?”
“Da matrícula e dos...”.
Emília interrompeu: “Mãe, eu não tenho problema nenhum na faculdade. Tranquei minha matrícula há um mês e não... Já foi... Ehhhh... Ah, nós já conversamos sobre isso. Por favor!“